LÍNGUAS COMPARADAS

O espanhol e o português são línguas indo-europeias derivadas do latim que se desenvolveram na Península Ibérica durante aproximadamente o mesmo período. Embora as duas línguas estejam intimamente relacionadas pela origem e região de seu desenvolvimento, entre elas existem diferenças importantes que podem criar problemas para falantes de uma ao tentar aprender a outra.

Apesar do fato de seus léxicos conterem bastantes elementos similares, os idiomas diferem significativamente na pronúncia e na semântica ou uso das palavras. Foneticamente, o português é mais próximo ao francês ou ao catalão, enquanto que a pronúncia do espanhol está muito mais perto do italiano. O português inclui um inventário fonêmico maior do que o espanhol, o que explica ser o primeiro geralmente mais difícil de entender para os falantes do outro do que vice-versa, apesar da grande quantidade de semelhança léxica entre ambos os idiomas. Justamente nesse aspecto do léxico, conjugado com a semântica, reside uma das principais barreiras entre as duas línguas, que são os falsos cognatos ou cognados, os "falsos amigos". 

Para revelar que a estruturação fonêmica do espanhol apresenta menos variedade que o português, basta saber que neste existe muito mais sons vocálicos. Enquanto no primeiro as vogais não apresentam qualquer alteração, ou seja, permanecem fixas na sua pronunciação, no outro há enorme gama de alterações admitidas, por conta da sua pronúncia aberta ou fechada, e nasalizada ou não nasalizada, assim enriquecidas de nuances no Brasil pela importante mescla com línguas africanas.

As diferenças linguísticas entre o espanhol e o português se revelam ainda mais marcantes na língua escrita do que na língua oral, por causa das diferenças nas convenções ortográficas. Contudo, as duas línguas compartilham muito vocabulário que se escreve exatamente ou quase igual (mas pode pronunciar-se em muitos casos de modo um tanto diferente, como nos casos de alteração do lugar da sílaba tônica, e nos casos do som próprio que certas consoantes e encontros consonantais têm em cada idioma).

As diferenças em matéria de vocabulário entre ambas as línguas evoluíram por causa de vários motivos:

  • Enquanto o espanhol reteve a maior parte do seu vocabulário moçárabe, ou seja, de origem moura, a influência do substrato moçárabe no léxico do português foi menor. Ao longo do tempo e em muitos casos, palavras de origem árabe foram substituídas no português pelas correspondentes formadas de suas raízes no latim.
  • Durante o desenvolvimento dessas línguas na Idade Média e Renascimento, o espanhol manteve-se mais autônomo, enquanto que o português foi mais influenciado por outras línguas europeias, a exemplo do francês.
  • O espanhol e o português incorporaram diferentes influências das línguas ameríndias, africanas e asiáticas.

O espanhol e o português compartilham vários cognatos ou cognados, palavras cujos significados podem ser mais amplos em uma língua do que em outra. Por exemplo, o espanhol diferencia entre o adjetivo mucho e o advérbio muy. O português usa a forma muito para essas duas categorias gramaticais. Dentro desse universo dos cognatos, há uma série de termos, chamados de "falsos amigos", que representam uma das principais barreiras a serem transpostas pelos falantes de um idioma quando passam a aprender o outro.

"Falsos amigos"

Palavras de ambas as línguas que "traiçoeiramente" se escrevem de maneira igual ou quase semelhante, mas possuem significados ou usos bem distintos, vejam-se alguns casos:



Português

Abono: garantia gratificação.

Aceite: aceitação, endosso.

Acordar: despertar.

Acreditar: crer

Ano: ano

Apelido: alcunha (Brasil)

Balcão: mostrador, barra divisória.

Barata: inseto pestilento.

Borrar: manchar.

Borracha: goma de apagar.

Botequim: bar.

Carpete: tapete.

Cena: cena.

Cola: substância para unir por contato.

Embaraçada: confundida, atordoada.

Emborrachar: engomar.

Engraçado: gracioso, divertido.

Esquisito: raro, estranho.

Faro: olfato.

Fechar: cerrar.

Espanhol

Abono: assinatura, mensalidade; adubo.

Aceite: óleo, azeite; óleo lubrificante.

Acordar: lembrar(-se); decidir, combinar.

Acreditar: comprovar; creditar.

Ano: ânus.

Apellido: sobrenome.

Balcón: sacada.

Barata: coisa de pouco valor financeiro.

Borrar: apagar.

Borracha: bêbada.

Botiquín: estojo de primeiros socorros.

Carpeta: pasta.

Cena: jantar.

Cola: rabo, cauda; fila.

Embarazada: grávida

Emborrachar(se): embriagar(-se).

Engrasado: lubrificado, engordurado.

Exquisito: excelente, delicioso.

Faro: farol.

Fechar: datar.

Algumas diferenças gramaticais

Em termos gerais, as gramáticas do português e do espanhol não variam consideravelmente. Entretanto, existem diferenças relevantes quanto ao uso de artigos, possessivos e outros pronomes, de preposições e de alguns tempos verbais.


  • O espanhol não admite artigo definido diante de seus 'possessivos átonos', ao contrário do que se passa com seus pronomes correspondentes em português.

Exemplos Português:

Esta é a minha casa. 

Não quis me emprestar o seu carro

Ele/Ela não quis me emprestar o carro dele/dela. 


Exemplos Espanhol:

Esta es mi casa.

No quiso prestarme su coche.  

Él/Ella no quiso prestarme su coche.  


  • Enquanto no espanhol as regras são fixas e idênticas tanto na língua escrita como na falada, em português a colocação pronominal pode variar.

Em português, na língua oral há a tendência de omitir os pronomes em função de seus complementos.

Exemplo Portugês:

- Não sei onde coloquei as chaves.- Então procure (procure-as). Mas não procure (as procure) agora porque temos que ir embora.

Exemplo Espanhol:

- No sé dónde he puesto las llaves- Pues búscalas. Pero no las busques ahora que nos tenemos que ir.


  • Preposições

Em português existem muitas contrações de preposições e artigos. Algumas delas:

da = de + a

no = em + o

numa = em + uma

pelo = per + o

dessa = de + essa

naquela = em + aquela

nisto = em + isto

neste = em + este

deste = de + este

Em espanhol somente são admissíveis em dois casos:

al = a + el

del = de + el